Armazém Lorenzi

Armazém Lorenzi

De Francisco Falabella Rocha

 

João Homérico olhava desconfiado. Algo não estava certo. O velho sargento aposentado encarava a galinha com ar de incredulidade. Pelas suas contas, já era a terceira vez que ele recomprava a mesma galinha naquele armazém.

– Enzo, você está me enganando!

– Di cosa stai parlando? – disse papai, que encarava o espelho e penteava o cabelo.

Uma coisa era certa, ele só falava Italiano quando tentava enganar os clientes do armazém. O sargento João saiu da loja, mas deixou a ameaça no ar: conferiria no quintal de sua casa, caso sua galinha não estiver por lá, ele voltaria com a sua espingarda.

Enzo não se alterou. Continuou penteando o cabelo e olhou indiferente para o homem que já dobrava a esquina. Foi só o homem sumir de vista para, em um só movimento, Enzo correr, gritar e agitar os braços. Com a galinha roubada em mãos, papai me passou as coordenadas. Era preciso ser rápido, mas também discreto. O bairro já desconfiava do roubo das galinhas.

A minha sorte era que João Homérico era velho, gordo e arrastava a perna quando andava. De casa em casa, pisando em telhados e levando bicadas da galinha, eu avançava. Eu consegui devolver o bicho, poucos segundos antes de seu dono entrar no quintal e conferir o galinheiro. Do alto do abacateiro, eu observei a cena. Quando João se foi, eu peguei o seu galo cantante.

– Disgustoso grasso… Grasso… Senza cuore grasso… – cochichava papai.

João Homérico voltou desarmado e quis retratar-se com papai. Pelo transtorno gerado, João pagaria o dobro do preço pela galinha. Mas papai disse a ele, que enquanto ele voltava para casa, uma senhora entrou no armazém e comprou o bicho. João Homérico saiu confuso. Em breve, veria a mesma galinha à venda no armazém. Ele achava que estava ficando louco. Quando o velho sargento dobrou a esquina, eu entrei no Armazém Lorenzi com o seu galo.

Não demorou e o tio Ricardo estacionou a sua lambreta em frente à porta da loja. Ele trazia consigo uma linguiça defumada que ele roubara do açougue, na noite anterior. Papai ficava preocupado. A polícia já estava na cola de Ricardo e frequentemente os oficiais passava pelo seu armazém com perguntas. E não era só pelos pequenos furtos no açougue que Ricardo era procurado. Pelo que se lembrava, a polícia estava na cola de seu irmão desde seus primeiros passos na distante e querida Itália.

– Ricardo, não fica aqui dando bandeira. Vamos lá para casa, está na hora do almoço.

Papai fechou o armazém e nós caminhamos até a casa. A mesa já estava posta. Meus irmãos Vincenzo e Matteo esperavam ansiosos pelo almoço. Mamãe estava na cozinha preparando a lasanha.

– Vai lavar as mãos, suas pestes! – disse tia Lorena, em tom de rancor.

 A cinquentenária era amargurada e sempre que podia ofendia papai e seu lado da família. Enzo não entrava no jogo de tia Lorena, limitava-se a dizer que o seu caso era falta de marido.

– Como é o seu nome? – ela me perguntou.

– Como assim, Tia Lorena? Você sabe que eu me chamo Henrico Nobella Lorenzi.

– É o que eu temia… Você é um Lorenzi!

Ela era apenas Nobella; família digna e nobre. Não carregava o sobrenome que significa a escória da Itália: LO-REN-ZI. Prostitutas, traficantes, ladrões, mendigos… Deveríamos ter vergonha de carregar esse sobrenome. Desde a sua fundação, a família Lorenzi era só uma grande vergonha. Ela se inflamava com o assunto. Eu fugi do papo, enquanto ainda podia.

Meu irmão Matteo apoiava o queixo no prato. Quando o almoço demorava, ele era o que mais sofria. Era tão gordo que a minha antiga blusa não cobria toda a sua barriga. Faminto, ele foi à cozinha e roubou um pedaço de pão velho.

– Tudo que esse menino faz é comer. Trabalho noite e dia e não é o suficiente. Terei que arrumar outro trabalho só para bancar a sua gula. – disse Papai, com rancor.

Ao meu lado da mesa estava o meu irmão Vincenzo; o futuro padre da família – era o que todos diziam. Enquanto esperava pela comida, ele fingia rezar. No entanto, eu o conhecia bem. Ele bolava mais um de seus planos diabólicos. Vincenzo matava gatinhos, batia nos meninos menores da rua, tocava a campainha do vizinho, mas mantinha a mesma cara de santo. Vincenzo virou coroinha apenas para paquerar as meninas que iam à missa. Já que não poderia ser rico, seria religioso. Apesar de improvável, a sua tática funciona. Ele tinha dezenas de namoradinhas escondidas pela rua. As mães diziam que ele era um bom partido. Ninguém acreditava quando eu dizia que o “Santo” Vincenzo bebia o vinho, comia hóstia escondido na igreja e que, certa vez, jogou água com sabão no chão e viu com satisfação o padre escorregar no altar. Eu conhecia bem aquele seu sorriso. A mim, ele não enganava.

– Almoço! – gritou mamãe.

A lasanha mal chegara à mesa e Matteo já havia tentado atacá-la. Como resposta, o gordinho levou tapas na mão de todos os membros da família.

– Ninguém come antes da reza! Vincenzo chama o seu avô. – ordenou mamãe.

Com aquele sorriso no rosto, o menino saiu da mesa e caminhou pela sala com satisfação. No quarto, vovô estava deitado na cama com o seu uniforme. Todos os dias, Pepe vestia o seu paletó verde-oliva e carregava a bandeira da Itália. Não importava o calor, Don Pepe di Napoli – como era conhecido, nos seus melhores dias – nunca mudava o traje. Aquele era o paletó que ele usou quando serviu na primeira guerra mundial. Pepe estava sempre pronto para o combate. Era só uma pessoa aproximar-se que ele logo se escondia atrás de sua poltrona e arremessava almofadas.

Vincenzo, no entanto, sabia assustá-lo de um jeito único. Era uma das suas maldades preferidas e apesar de errado, eu deveria admitir: Vincenzo era bom no que fazia. O garoto aproveitou o cochilo do avô e rastejou pelo quarto. Escondido em baixo da cama, Vincenzo puxou o braço de Pepe que acordou assustado, gritando: Guerra! Proteggere l’Italia! Eu temia que uma dessas brincadeiras matasse o vovô. Mas o endiabrado Vincenzo se defendia:

– Ele já foi para guerra, levou até tiro. Não vai ser um susto que vai matar o Don Pepe.

A doença atrapalhava a sua vida e vovô pouco falava. Tinha apenas flashes de guerra. Papai dizia que a família não tinha condições financeiras para bancar o seu tratamento. Os remédios custavam o olho da cara e uma consulta médica no novo país era uma fortuna. A família não tinha condição. Mas mamãe fazia isso escondido; com o dinheiro das vendas das massas italianas. O assunto era tratado em sigilo. Ela colocava o medicamento na limonada suíça e vigiava para que nenhum menino bebesse do copo do avô. Don Pepe desconfiava que sua filha Natalia trabalhava para o inimigo e queria envenená-lo. Ele fazia jogo duro para beber o suco. Todo dia, o almoço era uma luta naquela casa.

Sentados à mesa estavam papai Enzo, mamãe Natalia, tia Lorena, vovô Pepe, Matteo, Vincenzo, Ricardo e eu. Antes de comer, rezamos por Fabrizio, o meu irmão mais velho que servia o exército. Na sala, com a vela acesa, o retrato do jovem era tratado com uma devoção religiosa.

Para a alegria de Matteo, o almoço finalmente foi servido. A lasanha era dividida com atenção. Papai ganhava o maior pedaço. Depois era dividida por ordem de tamanho. Eu era o menor e, por conseguinte, tinha o menor pedaço. Mamãe partia o seu pedaço por três e dava uma parte para cada um de seus filhos sentados à mesa. Ela era uma santa mulher. Passava horas preparando a grande lasanha e não comia um pedaço.

– Pare de olhar para os meus dedos, Henrico!

– Papai, como você…

– Eu já lhe contei: acidente na fábrica!

Ainda assim, os sete dedos permaneciam um enigma para mim. Papai não gostava nem um pouco daquele assunto. Apesar de ter três dedos a menos que todos os outros pais, Enzo Lorenzi fazia questão de dar uma surra bem dada. Até mais que os outros, era talvez um ponto de autoafirmação para ele. Não precisava de todos os dedos para isso. Mas mamãe concedia apenas dois tapas em cada menino, por dia. Para o azar de Enzo, eles não acumulavam. Mesmo assim, papai usava do seu direito cedo pela manhã, ele nos acordava com uma palmada de três dedos.

Ele dizia que era a sua forma de motivar a gente. Quando ele gastava todos os cascudos, nós aprontávamos para valer. Ele administrava o seu poder como podia e negociava com Natalia. Papai pedia mais um tapa em cada menino, nos fins de semana. Mas, mamãe não permitia.

Enzo já se preparava a reunião do armazém quando Matteo chegou com um bichinho no colo. De cara, papai disse: cachorro era proibido dentro de casa.

– Ma papà, ele também é da família. Seu nome é Snutchel Nobella Lorenzi.

Matteo gostava dos quadrinhos americanos e tirou de lá a inspiração para o nome: Snutchel. Tia Lorena ridicularizava a história, sorrindo, afirmava que o pequeno animal tinha tantas pulgas que não restava dúvida: ele era um Lorenzi legítimo. Ricardo defendeu o nome de sua família e uma grande discussão começou. Mamãe, vendo o impasse, resolveu a questão.

– Essa é uma família italiana, nada de nomes americanos. O cão chamará Badin. Você pode cuidar dele, mas ele ficará aqui fora.

– Ótimo, mais uma boca para alimentar… – resmungou Enzo.

Tia Lorena me puxou para o seu quarto e começou a contar sobre o passado do meu pai. Ela dizia que na Itália, Enzo era ainda pior que o irmão Ricardo. Mulherengo, ladrão, bebum e jogador. Apaixonou-se pela sua irmã Natalia e foi ela quem o salvou. Antes disso, toda noite, Enzo jogava cartas e apostava alto; um dinheiro que não tinha. Segundo tia Lorena, a família Lorenzi era: alérgica a dinheiro e decência – ela ria e batia palmas dos seus próprios comentários.

Quando se recompôs, concluiu que foi por causada das dívidas do carteado que meu pai perdeu os dedos. Foi o primeiro aviso. Se não pagasse o que devia, iria morrer. Enzo Lorenzi, o melhor jogador de Pôquer da bota, perdia um dedo por semana. O mesmo aconteceria comigo, caso eu continuasse a roubar as frutas dos vizinhos. Eu saí do quarto assustado, encarando os meus pequenos dedos. Seria verdade o que tia Lorena me contara? Por que ela odiava tanto os Lorenzi? Ricardo dizia que ela era apaixonada por papai na juventude. Lorena, indignada, negava o fato até a morte.

A reunião no quarto já havia começado. Diariamente, papai Enzo discutia o que cada um conseguiria para o seu armazém. O trabalho demandava de todos da família. Mas Tia Lorena não estava nada satisfeita. A cinquentenária reclamava, fazia corpo mole e era sincera demais aos consumidores do armazém:

– “Vai comprar essa fruta velha? Tenho até vergonha de vendê-la.”

Apenas em uma emergência, Don Pepe ficava no comando do armazém. Vovô julgava estar em um combate e arremessava laranjas nos clientes. Ricardo era outro que não poderia ficar lá. O irmão de Enzo desviava o dinheiro, comia as frutas, falava coisas inapropriadas para as mulheres e era procurado pela polícia. Restava para mamãe Natalia todo o trabalho – do armazém e da casa.

No armazém, eu pouco ficava, mas trabalhava duro rodando pelo bairro. Matteo era gordo demais para subir em árvores e, quando tentava participar, acabava quebrando as telhas dos vizinhos. Vincenzo fugia do trabalho alegando que era coroinha e seria padre, não poderia participar de furtos. Então, sobrava eu, Henrico Nobella Lorenzi, o filho caçula, para subir nas árvores e escalar os muros.

Roubar galinhas era uma arte. Segundo tio Ricardo, ele nunca conheceu alguém tão talentoso quanto papai. Mas a perda dos três dedos deixou Enzo fora do jogo. Ricardo lamentava e contava histórias de papai na juventude. Segundo ele, Enzo perdeu os dedos por causa de um jogo de futebol. Ele era goleiro do time em um jogo combinado. Contanto, Enzo não aceitou entregar o jogo e defendeu todos os pênaltis. Por isso, ele teve os 3 dedos da mão arrancados. Um para cada ponto na tabela. Seria essa a verdadeira história? Eu já não sabia no acreditar.

Naquele dia em uma das aventuras pelo bairro, um galho de árvore ficou preso na minha roupa. E após o pulo no telhado, eu vi que a calça abriu um enorme buraco. Papai não reagiu bem a notícia.

– Comprar outra calça? Você sabe quanto custa uma calça nova aqui? Mama dá um ponto. Agora, volte ao trabalho… – disse papai, desesperado.

Na minha casa, o guarda-roupa era coletivo. As poucas roupas eram comunitárias e respeitavam apenas a ordem de chegada. Não bastasse, o mesmo valia para as meias e cuecas. Vincenzo, meu diabólico irmão que se tornaria padre, sempre chegava primeiro e escolhia as melhores peças. Ele levava em qualidade e quantidade. Para todo o decorrer de toda uma semana, sobravam para mim: três camisas velhas, duas cuecas largas e uma meia furada.

– É por isso que o comunismo falhou! – dizia Tia Lorena, intrometendo-se na conversa.

Eu não queria ter Vincenzo como inimigo, por isso, não discutia. Já o meu irmão Matteo era um caso à parte. O gordinho, que não era aficionado a um banho, além de alargar, deixava o seu cheiro impregnado nas roupas. Não adiantava água sanitária, escova, sabão em pó… Depois de Matteo, as roupas nunca mais eram as mesmas.

Naquela semana, eu tinha que tomar cuidado. Para escalar as árvores e pular muros, eu vestia uma antiga calça social que papai usava no trabalho. Era preciso atenção sobrada, um arranhão no tecido e eu já estaria perdido.

Quando eu cheguei ao armazém, João Homérico olhava para o bicho acuado na gaiola:

– Vai falar que o cão também é seu, senhor João? – perguntou Enzo, sorrindo.

– Não é isso. Na placa estava escrito “vendo cão de raça”. Enzo, você não tem vergonha de vender um vira-lata de rua no seu armazém?

Lascia la sua maledetta grasso – em italiano, papai amaldiçoou o homem. Queria expulsá–lo, mas o sargento era o mais assíduo cliente do armazém.

Matteo entrou na loja correndo. O menino, triste com o sumiço do seu amado cachorrinho, só acreditou no que o maldoso Vincenzo disse a ele quando viu o bicho na gaiola do armazém, ao lado das galinhas roubadas.

– Papai, você está vendendo o Snutchel? – perguntou Matteo, chorando.

– Sua mãe disse que o nome dele é Badin. E sim, o cão será vendido!

O menino chorava copiosamente.

– Meu filho, nós temos que ganhar dinheiro. Já viu o tanto que você e os seus irmãos estão comendo? Não consigo bancar…

Mamãe, ao ver a tristeza do filho, foi à loja e convenceu Enzo a mudar de ideia. Badin Nobella Lorenzi voltava para casa e, agora, tinha lugar na mesa, ao lado de Matteo, que não largava o cão por nada. O seu amor pelo bicho era tão grande que ele dava, secretamente, até um pedaço de sua lasanha para ele. Eu aconselhava Matteo; caso papai descobrisse, era palmada na certa. Já conseguia vê-lo gritando:

– É só o que me faltava, sustentar um vira-lata comendo lasanha!

Mamãe só parava de fazer massas quando rezava. Quando lhe faltava tempo, ela cozinhava rezando. Eu, escondido, escutava tudo. Talvez por isso sua massa fosse tão boa. Havia algo divino no seu molho à bolonhesa. Natalia rezava pela melhora de Pepe e para Tia Lorena achar um marido. Pedia o retorno de seu filho Fabrizio. A prece era para as coisas melhorarem, para eu parar de roubar frutas e galinhas dos vizinhos. Rezava para Vincenzo virar um bom padre e para Matteo parar de comer tanto.

No outro dia, eu juntava as mangas roubadas na sacola plástica quando, próximo ao armazém, um homem fardado puxou a minha orelha e me encostou na parede. Minha mão tremia.

– Henrico Nobella Lorenzi, você está preso por roubar as frutas do senhor Trindade. Por sinal, as melhores mangas do bairro…

– Fabrizio, mio fratello!

A emoção foi tão grande que a sacola caiu no chão. Fardado com as roupas do exército, o meu irmão mais velho voltava para casa. Houve comemoração e festa. Mamãe cozinhava e agradecia ao céu. Até tia Lorena tinha um sorriso no rosto. Assim que entrou no quarto, Vovô Pepe lhe arremessou o travesseiro; desconfiava que Fabrizio fosse um inimigo disfarçado. Mas, logo depois o considerou um soldado aliado ao seu batalhão. Juntos, planejaram o ataque das almofadas e ganharam a guerra nas trincheiras do sofá da sala. Papai penteava o cabelo e pensava como que seria o futuro do seu armazém. Encarava o soldado Fabrizio, o seu primogênito, que acabara de retornar. Seria o seu salvador ou apenas mais uma boca para alimentar? A décima boca, segundo as suas contas – contando com o cão.

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