Banguela

Banguela

De Francisco Falabella Rocha

 

I

E não é que João Agripino encontrou o sumido Baltazar, naquela esquina de bar? Para pagar o que lhe devia, o homem sempre dizia estar curto; porém, para beber uísque – falsificado, sejamos justos – e contar vantagem com os outros bebuns, Baltazar sempre achava um jeito.

– Joãozinho, meu querido! – disse o homem, em um abraço de urso.

Preso pelo homem grande e barbudo, João aceitou o abraço incomodado, em um protesto silencioso. Baltazar era de uma proximidade absurda. Os fiéis seguidores do bar do Gerson já conheciam sua rotina. Era um bêbado feliz e a depressão só chegava na hora de pagar a conta ou quando faltava dinheiro para mais um gole.

Ao olhar ao redor, João percebeu que o clima de festa estava instaurado no bar. Naquela noite, não havia transeunte que não era tentado a beber de graça: à custa de Baltazar. O homem dizia com alegria que havia acertado o milhar no jogo do bicho.

E as surpresas não paravam por aí. João Agripino viu algo diferente naquela boca banguela. (Assustado, pensou ser interferência de algum farol no olho ou luz do poste, mas a cada olhar, o reflexo ofuscava a realidade passada). Logo, teve que aceitar o fato irresistível: na antiga banguela, havia um dente. E não só isso: o primeiro pré-molar brilhava intensamente; tinha luz própria. João já preparava a pergunta, mas Baltazar se antecipou:

– Já sei, Joãozinho. O dinheiro que eu lhe devo! Aqui está, meu rei.

Baltazar abriu a carteira recheada e mostrou dez notas de cem. A eterna dívida seria quitada. Por mais estranho que pareça, João sentiu um vazio. Ele era um homem de rituais e pronunciamentos. Estava feliz por receber o dinheiro, mas acreditava que uma dívida de tantos anos merecia um cuidado maior. Ficou insatisfeito por Baltazar quitá-la de supetão.

Após dois copos de uísque (de procedência duvidosa), João lembrou que deveria seguir o seu caminho. Comovido por uma notícia de morte, ele havia planejado uma cerveja com Petrônio no Bar do Chico. O velho sargento ranzinza negou qualquer informação pelo telefone. Segundo o próprio era “homem de olho no olho”. Assim, João seguiu o caminho pensando no improvável: na boca banguela havia dente que brilhava.

 

II

Quando chegou, encontrou o amigo, aos prantos, isolado no fundo do bar. Petrônio era uma dessas almas tristes por natureza que não se animava por nada e quanto mais bebia, mais melancólico ficava. Era um caso sério.

– Que bicho te mordeu? – perguntou João.

– Não ficou sabendo do Baltazar?

– Está lá no bar do Gerson, fazendo festa para burro. Ganhou no bicho!

– Que isso, rapaz! Perdeu o juízo? – perguntou Petrônio, indignado. – Baltazar morreu atropelado, semana passada! Eu mesmo fui no enterro.

Sem pedir licença, João se levantou da mesa e foi ao banheiro. Jogou água no rosto e voltou com a pergunta que o torturava: era do Baltazar, da boca banguela, que estavam falando? Depois de trocar em miúdos, os dois concluíram que falavam, sim, da mesma pessoa: Baltazar, assíduo bebum do bar do Gerson. Existiria outro? Do seu fim, porém, os dois discordavam com veemência. O sargento aposentado fez até promessa:

– Dou um tiro no meu próprio peito, caso ele não esteja morto!

– Calma lá, Petrônio. Também não é para tanto.

João decidiu mostrar o dinheiro que ele recebera, mas este não estava mais no seu bolso. Muito menos estava na sua carteira. Petrônio disse para João para colocar a cabeça no lugar; Baltazar estava morto e defunto nenhum quita dívida com dinheiro do bicho. Teimoso, João Agripino concluiu que Baltazar apenas mostrou o dinheiro e voltou com ele para a carteira. João insistiu que Petrônio o acompanhasse até o bar do Gerson. Lá ele encontraria o falecido Baltazar, o fantasma banguelo; bebendo e abraçando quem via pela frente. Mas o velho disse que não iria mover uma palha. Beberia em silêncio, em homenagem ao morto.

 

III

Logo, sozinho, João fez o caminho inverso. Na porta do bar do Gerson, a festa ganhava proporções inimagináveis – e não é que era o defunto do Baltazar que bancava toda aquela bebedeira? Quando finalmente avistou o barbudo, João sentiu um arrepio. Via ele um fantasma? Nesta ocasião, foi João que fez questão de abraçá-lo – com a prerrogativa que seria uma boa prova de que Baltazar estava mesmo vivo.

Quanto ao dinheiro, Baltazar fez questão de pagar novamente – quando bêbado, o barbudo era uma das figuras mais generosas da cidade. Dessa vez, João se sentiu mesquinho e recusou o dinheiro. (O primeiro pagamento estava no bolso da camisa).

Com o semblante sério, João contou para Baltazar sobre o rumor de sua morte. O homem barbudo, que já estava alto na bebida, recebeu o relato com muita alegria. Em pouco tempo, a história havia se espalhado pelo bar do Gerson. “Viva o morto Baltazar!” – gritavam os bebuns. A risada – assim como a bebedeira – era contínua. Algo mais incomodava João. Foi por isso que ele foi logo perguntando:

– Que coisa é essa na sua boca, Baltazar? Você não era banguelo?

– Joãozinho, minha pérola. Agora, eu sou um ex-banguelo!

Após João insistir, Baltazar concordou em ir para o bar do Chico e dar pessoalmente a Petrônio as boas novas: ele estava vivo e abonado.

 

IV

Mal eles saíram em direção ao outro bar, Baltazar, bêbado feito um gambá, tropeçou no próprio pé e caiu de quatro, no meio da rua – com meia nádega à mostra. Tomado por risadas e aplausos do bar, o gigante barbudo se levantava com muita dificuldade. João, que andava distraído, quando viu a cena, correu desesperado. Um caminhão, em alta velocidade, anunciava-se no final da rua. Seu amigo pensou que aquele era o aviso do destino: Baltazar morreria atropelado! Em um ato heroico, João invadiu a rua e com um pulo conseguiu empurrá-lo para longe. Caído na calçada, o ex-banguelo estava salvo.

João, entretanto, não teve a mesma sorte: o homem foi atingido violentamente pelo veículo de carga e foi arremessado para longe. O seu corpo caiu próximo à porta do bar – pouparemos os detalhes, mas a coisa foi feia; quem viu nunca mais esqueceu a cena. Não demorou e o local era só grito, pânico, choro e reza (em ordens alternadas).

Em poucos minutos, a ambulância chegou e levou o corpo de João para o pronto-socorro. Dois ou três policiais apareceram com perguntas e escolheram pessoas para dar depoimentos sobre o acidente – com a delicadeza que lhes é de costume. Ao notar a confusão, o bar do Gerson fechou suas portas e a festa de Baltazar terminou com ar trágico. O homem, que quase morrera, correu para o hospital e acompanhou o triste desfecho de seu salvador: João Agripino Resende foi declarado morto.

 

V

Baltazar saiu do hospital arrasado e vagou pela madrugada. No alto da noite, ele procurava um único bar para afogar as mágoas. Entrou em um, pediu um uísque e sentou cabisbaixo. No fundo do bar, um homem grisalho, incrédulo no que via, abeirou-se de sua mesa.

– Santo pai… Baltazar, é você? – perguntou Petrônio, como se visse um fantasma.

Baltazar disse que sim e, por motivos distintos, os dois choraram compulsivamente. (Ambos tiveram que ser consolados por generosas doses de uísque). Baltazar explicou:

– Você confundiu, Petrônio. Foi o Ademar que faleceu. Não se lembra? A gente até se encontrou no enterro, semana passada.

– Mas é claro! Já sei por que troquei as bolas: Ademar também era banguelo.

– Nem todo banguelo é igual, Petrônio! – resmungou Baltazar, com rancor.

Ao perceber que o sempre alegre gigante chorava copiosamente, Petrônio perguntou:

– Que bicho te mordeu, Baltazar?

– Não ficou sabendo do Joãozinho?

– Encontrei com ele, agora mesmo. Ele foi atrás de um dinheiro…

– Perdeu o juízo, Petrônio? – perguntou Baltazar, irritado – Joãozinho morreu atropelado! Eu mesmo acabei de sair do hospital.

Perplexo, Petrônio coçava o resto de cabelo grisalho que lhe sobrara; o que já estava confuso na sua memória havia ficado ainda mais nebuloso. Sem pedir licença, levantou-se da mesa e foi ao banheiro. Pelo caminho, ele se lembrou de uma promessa que fez ao falecido João. Algo sobre um tiro no peito. Petrônio jogou água no rosto e retornou à mesa.

Baltazar, por sua vez, triste com a morte do amigo, nem calculava que havia desperdiçado no bar do Gerson quase todo o dinheiro que ganhara no jogo do bicho. Os dois bebiam em silêncio, enquanto o dono do bar já puxava a porta de ferro.

Dentro do copo de uísque, uma luz própria boiava sutilmente entre as pedras de gelo. O sargento julgou ser um reflexo do espelho. Mas, ao olhar novamente para o copo ao lado, viu o objeto dançar sutilmente junto ao movimento da bebida. Ao contrário do que pensava, Baltazar não saíra ileso do acidente. Quando ele voltasse a sorrir, haveria um vazio. Um buraco na alma. Um sorriso de boca banguela.

1 Comment

  • Elisa Massa
    20 de agosto de 2019

    Genial!!!

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