Corredor da Sorte

Corredor da Sorte

De E. Reuss

 

Eu gosto mais deles do que eles gostam de mim, disso eu tenho certeza. Para falar a verdade, eu admiro a espera e a paciência deles.

Meus passos ressoam de forma regular na passarela de alumínio do telhado, enquanto, lá embaixo, eles dormem sob uma camada suspensa de roupa suja, colchões e outros corpos presos por cordas e redes no teto da gaiola.

As pessoas simplesmente aprendem a viver em níveis, como na cidade. Mas as semelhanças com a cidade acabam aí, porque aqui você sente o cheiro… E não é o cheiro de merda de que estou falando, é o cheiro da ausência da sorte. Afinal, a prisão é isso, uma sala de espera para aqueles que nasceram sem sorte.

Na Galeria E as coisas são diferentes. Não há sorte por aqui também, mas aqui eles tem portas e janelas, privacidade e sono sem perturbações. Um reflexo do dinheiro que eles tiveram lá fora. Aqui é o lugar onde gosto de passar meu tempo, pois posso deslizar sem fazer barulho pelos corredores e espiar pela pequena janela em suas portas.

Naquela noite, um deles sorriu para mim, o primeiro sorriso que recebi na ala masculina em não sei quantos anos. Havia uma espécie de passividade nele que chamou minha atenção, algo que me lembrava Santidade, assim, sentado de pernas cruzadas no chão úmido.

E que sorriso, tenho que dizer. Dava para perceber que foi investido dinheiro naquele sorriso. Um polimento perfeito, reluzente, caloroso, livre da podridão que acomete os moradores das gaiolas.

Tirei a garrafinha de uísque do bolso da farda e comecei a beber. Ofereci um pouco para o monge, mas ele não ia querer aquela merda, não com aqueles dentes.

Enrosquei a tampa enquanto ele sorria para mim e comecei a deslizar novamente pelo corredor.

“Tu parece meio abatido, rapaz.”

Eu parei. No estado terminal em que eu estava, eu precisava parar para qualquer coisa. Perguntei se ele falava comigo.

“Sim.” Ele disse. “Eu sei como tu vive… Conheço bem o teu tipo. Às vezes, ladeira abaixo é o caminho mais fácil.”

“Ladeira abaixo? Eu?” E comecei a rir.

“Acha que eu tô aqui contra a minha vontade?” Ele disse, sorrindo com mais intensidade.

“Opa, acho que é hora de sair daí, então.”

Nesse momento, talvez influenciado pela bebida, decidi abrir as calças e urinar pela janelinha por onde passávamos a bandeja de comida.

Olhei pela abertura e vi que ele estava paralisado na mesma posição, agora sem o sorriso no rosto, o que me deu certa satisfação.

“O que foi? Tá surpreso?” Eu disse. “Sua vontade não vale nada aqui.”

Nesse momento, me senti tonto e tive que me apoiar na porta da cela para não cair. Uma névoa escura começou a cobrir minha visão e, por um momento, achei que estava morrendo. Antes de desmaiar, consegui dizer:

“Vivendo e aprendendo, meu amigo. Vivendo e aprendendo.”

Verdade. A vida nos ensina muita coisa. Naquele mesmo dia, por exemplo, ela me deu uma lição dolorosa: Descobri que paraplégicos não sofrem de disfunção erétil, o que não seria particularmente doloroso se a ereção não estivesse dentro de minha esposa.

 

***

 

Acordei mais cedo do que o costume naquele dia e senti o cheiro do café da manhã. Simone devia estar na cozinha preparando omelete para ela e para o meio-irmão, Laércio, esse parasita desalmado que viera junto com o casamento.

Eles sempre foram próximos, talvez até demais. Qualquer um teria pena dele se o visse chorando na mesa da cozinha com a boca suja de leite e ovos, dizendo que eu o ofendi de alguma forma. A face do atraso mental e da melancolia. Quando isso acontecia, Simone sentava em seu colo, enfiava a cabeça do irmão no meio das tetas e se balançava para os lados, enquanto consolava-o com uma voz melosa e enjoativa.

Por isso eu não julgo o pai deles, que em algum momento da infância de Laércio decidiu atirar na cabeça da mulher e acertar um tiro nas costas do filho. Infelizmente, o garoto ficou apenas paraplégico e, com o pai preso, foi morar com a meia-irmã.

E foi essa a razão de eu não ter me surpreendido ao entrar na cozinha e encontrar Simone sentada no colo do irmão do outro lado da mesa. Comi um pão velho com café gelado e, quando me levantei para levar o prato sujo até a pia, Simone disse: Deixa aí que eu lavo.

Fiquei perplexo. Não havia nenhuma cláusula sobre lavar louças no contrato que assinamos quando casamos. O trato era o meu dinheiro pela comida e pela companhia dela. Recentemente, até o sexo deixou de ser uma atividade cooperativa.

“Eu mesmo lavo.” Eu disse e percebi seus rostos ficarem vermelhos de tensão.

O que me surpreendeu não foi a nudez de Simone e de Laércio quando contornei a mesa, mas sim o fato de que, no momento em que ela desceu do colo do meio-irmão, o pênis de Laércio olhou para mim e pareceu fazer uma reverência. Ereto, imponente, rindo da verdade aniquilada, a crença de que paraplégicos não tinham ereção e, portanto, não eram uma ameaça.

“Caralho.” Eu disse, e não consegui dizer mais nada.

Contemplei minha situação por um momento antes de decidir o que fazer. Minha mãe costumava dizer que não devemos maltratar mulheres, idosos e deficientes. Por isso decidi bater nos dois. Consegui acertar um soco na boca de Simone antes de ser imobilizado por Laércio com um abraço de uma força descomunal. Jesus, esses deficientes tem força nos braços. Bem que eu deveria ter comprado aquela cadeira de rodas elétrica que a Simone tanto pediu. De repente, Simone cravou as unhas nas minhas bochechas e pude sentir o gosto de sangue na boca. Caí de joelhos e permaneci no chão da cozinha por horas, eventualmente caindo de costas e dormindo até a hora de ir para o trabalho.

“Hora de acordar.” Simone me despertou com um tapa. “Quero o divórcio.”

Eu ri e senti a carne das minhas bochechas me dar outro tapa na cara.

“Simone…”

“Olha, acabou. Vai embora.”

“Depois de todos esses anos?”

“Conheço ele há mais tempo que você”

“Mas foi bom… Digo, o casamento. Não foi?”

“Tudo com ele é muito melhor”

“Eu te amo, Simone. Esquece isso. Você disse que me amava…”

“Menti.”

Droga. A vadia estudou bem as respostas.

 

***

 

Acordei molhado e com uma dor se instalando em algum lugar da minha cabeça.

“Se serve de consolo, a urina é sua.”

Eu conhecia essa voz. Era a voz do monge. Eu havia dormido na porta de sua cela e a minha própria urina havia encontrado alguma reentrância no concreto desnivelado que levava até a minha bunda.

“Sabe o que você não tem?” Ele disse.

“Um fígado?”

“Não.” Ele disse. “Sorte.”

“Legal.”

“Você acha que passaria por tudo isso se tivesse sorte?”

Levantei lenta e dolorosamente do chão molhado. Apoiei as mãos na porta tentando afastar a tontura e a náusea.

“Sorte e dinheiro, Bruno. Isso eu posso conseguir pra você.”

Minhas energias permitiram apenas que eu erguesse um pouco a cabeça para olhar pela abertura na porta. Fui atingido pela força daquele sorriso milionário e tenho quase certeza que sorri de volta.

“Isso mesmo. É dinheiro o que você quer, não é?”

Seu sorriso se abriu mais do que eu achei que fosse possível. Aquilo que era felicidade. Como eu queria aquilo.

“E você pode ter.” Ele disse, lendo meus pensamentos.

 

***

 

No começo, eu também não acreditei que aquele criminoso disfarçado de monge vegetando numa cela úmida e escura pudesse ser o guardião de algum segredo para a felicidade. Mas dois meses se passaram e agora eu tenho mais dinheiro do que algumas nações de terceiro mundo.

O dinheiro simplesmente continuou entrando. Entrando. Entrando. Estuprando minha conta bancária como se não houvesse amanhã. Criando a minha volta uma força análoga ao magnetismo, um grande imã atraindo homens e mulheres que, mais do que tudo, desejavam me dar prazer.

No fundo, todos veneram o dinheiro. Você pode dizer que valoriza o intelecto, as artes, o progresso, que você trocaria todo o dinheiro do mundo pela oportunidade de realizar sua grande obra. Uma obra que fixaria seu nome no panteão dos grandes gênios da humanidade.

Você desprezaria o meu modo de vida, as minhas roupas, as minhas mulheres. Então Mika, minha assistente pessoal, uma estudante de medicina de dezenove anos da Dinamarca, com os olhos mais azuis que você veria durante toda a sua existência terrestre, levantaria graciosamente a porta da minha Lamborghini Murciélago e colocaria a si mesma a sua total disposição. A demonstração de poder teria o efeito intimidante desejado, mas seria uma intimidação amigável e hipnótica e te lembraria um tipo de dominação sexual a qual os homens e mulheres adoram se submeter.

Salvatore Ferragamo, Gucci, Versace, Alexander McQueen, Brioni, você veria esses nomes espalhados pelo meu corpo e estaria convencido de que eu detenho o segredo para a vida eterna. Eu convidaria você para me acompanhar em uma viagem em direção ao núcleo rosado e suculento de uma vida cercada de mimos. Você seria transportado pela minha Lamborghini quase que instantaneamente para um lugar sem igual, talvez comparável unicamente ao útero de sua mãe: O meu Palácio de Cristal, uma réplica da construção em ferro fundido e vidro projetada pelo lendário Sir Joseph Paxton. Mas em vez da Inglaterra, estaríamos em pleno solo brasileiro, elevados aos céus pela majestosa serra catarinense e pela força transcendental da riqueza.

O Palácio é construído sobre florestas e rios, jardins de pedras e vinhedos, você mesmo estaria em uma das câmaras reservadas a hóspedes em que duas araucárias tocam com delicadeza a abóboda vitrificada a trinta e três metros de altura, enquanto o som das bolhas do seu champagne Boërl & Kroff seriam abafadas apenas pelas bolhas da jacuzzi olímpica instalada nos seus aposentos. Você teria a sua disposição um grupo de jovens cuja beleza o hipnotizaria e suprimiria seus sentidos.

E riríamos juntos de todo o nosso passado financeiro e de nosso ceticismo, da mesma forma que eu riria pelo resto da minha vida daquela noite em que quase não acreditei que um carimbo mágico pudesse me trazer felicidade.

 

***

 

“Eu sei que parece mentira. Mas você deve ter algumas das notas que eu carimbei aí na sua carteira.” Nesse momento, o monge deixou a posição meditativa em que estava e começou a abaixar as calças.

“Ei, ei.” Eu disse, virando o rosto. “Segura o entusiasmo.”

“Procure por isso aqui.” Ele me mostrava um símbolo tatuado na coxa esquerda, que lembrava um floco de neve.

“E você inventou toda essa história para poder furtar a minha carteira?”

“Não. Acredite em mim. Tudo o que você tem que fazer é carimbar as notas com o carimbo mágico.”

“Certo…”

“Sabe o que esse símbolo significa? Para o universo? Que o dinheiro é seu, e ele sempre devolve o que te pertence.” Ele disse. “Com juros.”

“Olha, amigo, eu já ouvi falar de muito esquema miserável nessa prisão, mas que puta montoeira de bosta você inventou aqui, hein? Eu até admiro esse seu autocontrole, porque tenho que admitir que você mente consideravelmente bem pra um ladrão.”

Situações como essas num lugar como esse geralmente não levam a nada porque ceticismo e arrogância são praticamente pré-requisitos do candidato a Agente Penitenciário. Não que os agentes sejam todos pessoas sem alma, mas estamos falando aqui de interação diária com indivíduos que se assemelham a seres humanos apenas fisiologicamente, do tipo que trocam bebês viciados em crack desde o útero por saquinhos de heroína ou que ficam num estado tão deplorável que são parados pela polícia e não entendem o motivo de estarem presos até o advogado deles explicar que foram presos por excesso de velocidade e por haver um braço amputado preso na antena do carro.

Os agentes com quem eu divido o local de trabalho são caras com um bom senso de autopreservação e, por isso, a resposta padrão para propostas do tipo “me passe a sua carteira que eu te mostro” é uma sessão de espancamento grupal envolvendo o meliante sob um lençol. O problema aparece quando o agente penitenciário se encontra num momento sombrio de sua vida, pessoalmente falando, e sentindo dores em lugares que ele nem imaginava que possuíam terminações nervosas, à beira de um colapso emocional ou de um coma alcoólico.

Nesse estado, eu pensava que qualquer proposta, por mais idiota que fosse, não poderia tornar as coisas piores do que já estavam.

Por isso eu cheguei no final do corredor da galeria E e abri minha carteira e peguei a única cédula que eu tinha: uma nota de dois reais amassada e fedendo a bunda com o seguinte símbolo ao lado da frase “Deus seja louvado”:

 

 

“Isso é outra piada?” Estendi a nota para dentro da cela.

“Eu não disse?”

“Que porra é essa?”

“Eu apenas imaginei, sabe, considerando a quantidade de dinheiro que eu carimbei na minha época, que você teria uma dessas notas.”

“É? E de que quantia estamos falando aqui?”

“Uma estimativa? Algo em torno do PIB do Suriname.”

“E isso é muito?”

O silêncio repentino me fez olhar pela pequena abertura da porta. Minha visão foi ofuscada pelo brilho que emanava de sua cabeça sorridente. Não esperei por uma resposta para a minha pergunta, aquilo era tudo o que eu precisava. Afinal, um sorriso daqueles custava dinheiro.

“Seus dois pilas, amigo.” Ele disse enquanto eu caminhava em direção à saída.

“Pode ficar com ele”, eu disse e uma risada infantil e sincera reverberou pelo corredor.

“Eu não disse, Bruno? Eu não disse que o universo sempre devolve o que é seu?”

 

***

 

Não vou negar que me senti um idiota carimbando aquela nota de dez reais e a entregando para a atendente da lotérica. Dois dias se passaram sem eu me lembrar da aposta quando, no terceiro, fui atingido em cheio pela lembrança do sorteio, que fora na noite anterior. Comparei os números da loteria com os números do meu bilhete e descobri que havia ganhado quatro mil, trezentos e vinte e um reais, descontado o imposto de renda. Naquela noite eu não consegui dormir e fiquei o tempo todo sentado na cama alternando entre goles de uísque e gargalhadas histéricas.

Foi fácil no começo, quando o dinheiro ainda era pouco e as viagens até a loteria não eram tão frequentes. Mas logo precisei contratar uma fisioterapeuta para tratar de uma dor no ombro direito que havia surgido após uma sessão de carimbagem de dezoito horas ininterruptas. Todo o dinheiro que eu ganhava em jogos da loteria era sacado, levado em malas com rodinhas até a espelunca em que eu morava, carimbado e mais uma vez carregado até as lotéricas mais próximas para que eu pudesse fazer minhas apostas.

De repente, me vi dividindo o chuveiro com uma pilha de malas de viagem cheias de dinheiro e me surpreendi ao ver que o lugar das bebidas na geladeira estava ocupado por tijolinhos de notas de cem reais.

A fisioterapeuta agora prestava seus serviços 24 horas por dia. Nós começamos a ficar realmente preocupados com o calombo no meu ombro, que crescia mais a cada dia e adquiria feições quase humanas, como se eu estivesse desenvolvendo uma segunda cabeça.

Paguei a fiança do meu amigo monge, já que eu devia pelo menos isso a ele. Descobri então que ele havia sido preso por fraude bancária e suborno e que ele, o Monge, era um advogado e economista conhecido internacionalmente no submundo da vigarice corporativa.

“Eu vou garantir, pessoalmente, que nada do que aconteceu comigo aconteça com você.” Ele me disse durante uma reunião de negócios. “Mas não podemos continuar pagando isso para o governo”.

Ele apontava para uma daquelas somas monstruosas que ninguém sabe falar numericamente.

“Como fazemos isso?”

“Microfinanças”, ele disse em meio a um de seus sorrisos.

“…”

“Montamos uma ONG internacional especializada em microfinanças. Oferecemos pequenos empréstimos para comunidades rurais do oeste da África e da Índia. Criamos uma carteira de clientes de fazer qualquer investidor chorar de dó. Nossa propaganda passará na TV em horário nobre, e vai mostrar uma velhinha de noventa e dois anos que precisa de dinheiro para comprar uma nova cabra, já que aquela que a acompanhava diariamente pelos campos de fumo caiu de um penhasco. A velhinha precisa desesperadamente do leite e da única companhia que ela tem na vida. Nós ajudamos esse tipo de gente. Milhões deles. Os impostos são baixíssimos, e os lucros, altíssimos. Os maiores juros do mercado, o das microfinanças. A perfeita máquina de lavar dinheiro, já que nessas comunidades eles não emitem nota fiscal de cabras e coelhos.”

“Nós vamos ajudar esse povo?”

O Monge colocou sua mão no meu ombro e sussurrou entre os dentes: “Elas não existem, Bruno. Nada disso existe.”

“Não?”

“O que existe por traz da fachada é uma organização bilionária, composta por milhares de funcionários instalados nas nações mais viciadas do mundo. E sabe o que eles estão fazendo? Jogando com a sua sorte, com o seu dinheiro. Nada de lotérica controlada pelo governo. Nada disso. Estamos falando de jogo do bicho, poker francês, luta de rua em valparaíso, cassinos subterrâneos da yakuza, briga de galo na Costa Rica, et cetera. Tudo que você tem que fazer é carimbar o dinheiro. Eles te ligam e você escolhe no que apostar. Logo em seguida você recebe a ligação e é sempre a mesma frase: Nós ganhamos. E o dinheiro continua entrando mais rápido do que você consegue gastá-lo.”

Aquilo parecia bom demais para ser verdade, mas o dinheiro começava a me influenciar e eu acreditava que minha sorte havia mudado.

Vendo meu sorriso, o Monge disse: “Fala, Bruno, qual é o seu maior sonho?”

Eu estava sonhando alto. Alto demais. Garrafas e carros e mulheres e um sonho que eu queria realizar mais do que tudo. Um sonho tão grande que ofuscava todos os outros.

“Meu sonho é acabar com a vida daquela vagabunda.”

 

***

 

Eu estava sentado num facho de luz que se projetava da janela e conferia ao ambiente aquela atmosfera sonífera e poeirenta de escritórios de advocacia com carpete. A recepcionista digitava alguma coisa no computador e o ar condicionado zumbia e cuspia gotas de condensação na minha cara. De repente, um telefonema. A recepcionista atendeu e desligou num intervalo de um segundo.

“Pode entrar.”

Quando entrei na sala de reuniões, percebi no rosto de Simone e da advogada que elas não me reconheceram. Talvez fossem meus sapatos de couro de crocodilo, que brilhavam tanto sob a luz do sol que mais pareciam globos de discoteca. Isso ou Simone apenas não estava acostumada a ver o brilho da sorte emanando do meu rosto.

“Senhor Bruno?” A advogada precisou confirmar e senti que Simone também esperava a resposta.

“Sim.”

“Você está ciente da dificuldade que tivemos para encontrar o senhor?”

“Sim.”

“Entramos com uma ação de divórcio litigioso contra você. No entanto, o juiz não quis assinar a sentença por conta do seu… desaparecimento.”

“Certo.”

“O senhor concorda com o divórcio?”

“Não.”

Tive ainda um ou dois segundos de paz antes que Simone começasse a falar.

“Seu broxa. Seu egoísta filho de uma puta. Viado. Tu sabe o que eu tive que aturar no nosso casamento? O nojo que eu sentia toda vez que te via com aquela farda nojenta? O desprezo que eu ainda sinto por ti? Olho pro Laércio e vejo como tu é atrasado. Metade do homem que ele é. Tua vida é patética, seu alcoólatra desgraçado. E tu ainda tem a coragem de aparecer aqui vestido desse jeito? Um terno, sério? Nem na porra do nosso casamento tu usou um terno, seu demônio! Na lua de mel tua camisa era só vômito e cerveja. Filho da…”

A essa altura, eu já tinha uma resposta padrão para esse tipo de lamentação: Dinheiro.

As pessoas adoram os vencedores, principalmente os vencedores por acidente. Elas querem crer em algo ao seu alcance e se sentem ligadas por essa crença em comum, a crença na Sorte, mais ou menos como os religiosos formam um conjunto de indivíduos em torno da ideia de Deus. E, a minha maneira, eu sou um Deus. Exerço minha soberania com aquilo que melhor representa a sorte: Grana.

Por isso, quando tirei vinte mil reais do bolso e coloquei sobre a mesa, só pude ouvir o som da submissão.

“Simone,” eu disse. Ela não tirou os olhos dos bolos de notas de cem reais a sua frente. “Eu quero sentir prazer.”

Silêncio.

“Senhor Bruno…” A advogada me interrompeu e eu lancei um monte de notas de cem reais na sua direção, que a atingiu na testa. Apontei na direção da saída e ela colocou as mãos no joelho de Simone, esperando alguma instrução. Coloquei mais trinta mil sobre a mesa e Simone virou para o lado e acenou positivamente com a cabeça. A advogada foi embora carregando o bolo de dinheiro que a atingiu.

Nesse momento assinamos um novo contrato tácito.

Simone receberia dez mil por cada encontro que tivéssemos e, em troca, eu receberia noites de um sexo selvagem do tipo que nós nunca fizemos antes.

Nossos encontros passaram a acontecer numa frequência metronômica, exatamente às 20 horas de toda segunda, quarta e sexta-feira, dias em que Laércio estava na fisioterapia. Nossa performance era frenética e sonora, com algo de falso em todos aqueles gemidos e caretas. Mesmo assim, deixei escapar um Eu te amo sincero na nossa décima noite e, por incrível que pareça, recebi a resposta que eu queria.

Simone chegou até a tatuar o floco de neve mágico atrás de sua orelha esquerda, a meu pedido, para provar que ela me pertencia. Mas aquilo era Veneração, e o problema é que todos sabem que nós deuses não nos importamos com quem nos venera, apenas com quem nega nossa existência. Acho que foi por isso que eu comecei a enjoar do sexo. Comecei a enjoar da constância dele, do prazer sem nenhuma emoção verdadeira.

Não era mais Simone quem eu queria, era Laércio. Tudo o que eu queria era encará-lo mais uma vez, mas agora do alto do meu panteão, e finalmente esmagar aquela cabeça suja de omelete.

 

***

 

“Quer alguma coisa? Um café?” Laércio perguntou em meio ao som do caos na cozinha.

“Álcool”, eu disse.

“Ah, temos Heineken.” Ele disse.

Aceitei fazer o sacrifício.

“Como vão as coisas aqui em casa? Tudo benzinho com a Simone?” Eu gritei.

“Bruno, meu chapa. Desculpa mesmo pelo o que aconteceu aquele dia, não era pra ser daquele jeito, sabe? A gente tava planejando explicar tudo para você, de um jeito bem explicadinho mesmo, bem correto tipo bem ético e honesto, sabe?”

A cada pausa eu ouvia um utensílio doméstico se espatifando na cozinha.

“Não se preocupa com isso, Laércio. Eu vim aqui para fazermos as pazes.”

Ele surgiu todo sorridente na porta da cozinha carregando uma long neck entre as coxas e uma xícara de café equilibrada no braço da cadeira. Com a mão livre, ele guiava a cadeira de rodas usando o joystick que, aparentemente, oferecia um controle extremamente vago. Ele ziguezagueou e colidiu com cadeiras e mesas, até encostar seus joelhos esqueléticos nos meus. Olhamos para a garrafa no meio das suas perninhas subdesenvolvidas e eu a peguei sem fazer contato visual.

“Você tá com uma aparência boa.” Laércio disse. “Acho que nunca vi você vestido assim.”

“Tenho sorte agora.”

“Sorte?”

“E dinheiro. Montei uma ONG. Ajudo pobres e ganho muito dinheiro assim. Moro num palácio de vidro lá em Bom Jardim.”

“Verdade? Estamos pensando em nos mudar pra serra.”

“Bom lugar pra morar.”

“É o sonho dela. Morar num lugar frio. Ela quer montar o abrigo lá.”

“Abrigo?”

“Ela sempre quis isso… Um abrigo para vira-latas.”

“Ela adora seres fedidos e indefesos”

Nós não sabíamos o que dizer em seguida e ficamos olhando para os nossos pés por um bom tempo.

“Já tenho um bom dinheiro guardado pra dar a entrada numa casa. Não usei ainda o dinheiro da herança, mas esse não vou gastar por enquanto, né? Vamos precisar daqui a pouco.” Ele riu. “Você já sabe, né?”

“RARRRRGHHHH… AAAAHHHH.”

“Você tá bem?”

“Não é nada… Só dando um gole nessa merda.”

“Então, você já sabe?”

“Sei o que?”

“Simone está grávida.”

“Ah… É?”

“É.” Ele sorriu.

“Parabéns.”

“Um verdadeiro milagre.”

“Milagre?”

“Anos atrás eu fiz vasectomia. E agora isso.” Seus olhos brilhavam de emoção.

“Você está querendo dizer que… que houve uma intervenção divina?”

“Acredito que sim. Foi o que eu disse, um milagre.”

“Você está dizendo que um Deus interveio… e fez Simone engravidar?”

“Sim… Deus colocou uma criança na nossa vida. Nunca me senti tão abençoado.”

Pobre Laércio. Se alguém pudesse esclarecer as coisas para ele de um jeito que o sofrimento pudesse ser amenizado. Se eu tivesse a paciência ou inclinação para isso, eu faria. Juro. Alguns vêm ao mundo para sofrer. Não bastava perder as pernas, a mãe e o pai, o coitado agora tinha que perder a dignidade.

Me levantei do sofá e caminhei até o quarto de Simone.

“Laércio,” eu disse, “vem aqui.” Ouvi às minhas costas o zumbido do motor da cadeira se aproximando e esbarrando nas paredes do corredor. Me sentei na cama, de frente para Laércio. A mesma cama em que eu fazia sexo com Simone três vezes por semana e sob a qual eu a via esconder o dinheiro que ganhava.

“Laércio, eu vou ser sincero com você. Eu gosto de você Laércio, eu acho que todo o seu sofrimento te deixou meio cego para algumas coisas.”

“Cego?”

“Sim. E agora eu preciso te mostrar quem a Simone é de verdade.”

“…”

“Eu vou te dizer exatamente o que você vai encontrar aqui embaixo do colchão.” Olhei para o teto, pensativo. “Não sou muito bom com números, mas eu acho que temos aqui trezentos mil reais em notas de cem, alguns conjuntos de espartilho e fantasias sensuais, alguns potes de lubrificante e um pen drive com músicas românticas que ela gosta de pôr para criar um clima quando eu venho aqui.”

Ele ficou mudo e o seu queixo começou a tremer.

“Eu tenho sorte agora, Laércio. Sorte e dinheiro.”

Levantei o colchão e me senti estranho presenciando as evidências das minhas noites com Simone. O dinheiro espalhado pelo estrado era muito mais do que eu lembrava, mas de alguma forma aquilo pareceu muito pouco. Todo o nosso casamento reduzido a notas e brinquedos sexuais. De repente o quarto ficou vazio e silencioso, e eu ouvia apenas o som exagerado do choro de Laércio.

 

***

 

Eu odeio minha rotina. Passo noites sem dormir, pensando no inferno que seria minha vida se eu perdesse o encanto. Quando consigo dormir, acordo em meio a ataques do pânico, achando que os últimos meses foram um sonho.

Ando constantemente acompanhado por três guarda-costas que juntos pesam uma tonelada. Não para me proteger, mas para proteger o carimbo. Meu braço lembra uma coisa atrofiada e mentalmente paralítica e me provoca ânsia de vômito quando me olho no espelho. Demiti minha fisioterapeuta incompetente e contratei uma equipe de três dos melhores fisioterapeutas do país, seis enfermeiras trabalhando vinte e quatro horas por dia e um chimpanzé treinado em um circo da Nigéria que me acompanha para onde quer que eu vá massageando meu ombro. Quando entro em algum lugar acompanhado pelo meu staff todos batem palmas e gritam de alegria, mas logo caem num silêncio constrangedor quando se dão conta de que aquilo tudo não é uma performance artística.

Todas as noites, converso com o Monge sobre a nossa operação usando códigos complexos que ele insiste em usar e que há muito tempo deixaram de fazer sentido.

“Galinheiro pagou doze,” ele falava quando eu coloquei o telefone na orelha. Eu ouvia os sons das teclas e do papel sendo cuspido por sua calculadora no fundo. “Com vinte e sete da semana passada é trinta e nove, e vinte dois do china pagou cinquentão vezes treze maloqueiros daquelas bandas, mais treze apostas com o Marconi é dezoito vezes treze menos comissão é duzentos com três pagando sessenta pra um, mais vinte por cada Lote do Uruguai é trezentos e trinta e deixa eu ver aqui… Pararí, parará, é setecentos e um pra caridade.”

“Mil?”

Uma gargalhada estrondosa disparou do telefone.

“Mil, diz ele.” O Monge disse. “Ô.”

“Ahn?”

“Tua patroa tá presa.”

“A Simone?”

“Sim.”

“Como? Por que?”

“Parece que ela entrou em estado de choque quando descobriu que o Laércio usou a roda da cadeira de propulsão elétrica como um torniquete para espremer o próprio pescoço com uma gravata. Quando a polícia chegou lá a cabeça já tinha sido decepada e a Simone tava em choque olhando pro que sobrou do Laércio.”

“Pelo amor de Deus.” Eu disse. Pela primeira vez em minha vida, eu matei alguém. No silêncio do telefone, me perguntei se eu seria capaz de me suicidar por Simone, e por um momento Laércio pareceu um homem maior do que eu.

“Agora ela tá em prisão preventiva porque encontraram o dinheiro embaixo do colchão.” O Monge disse.

“Mas o dinheiro era dela.” Eu disse.

“Sim, mas aí temos um plot twist e aparece uma mulher clinicamente obesa lá dizendo ser ex-esposa do Laércio. Na verdade, a polícia descobre que o Laércio já tinha um histórico de fodelança com irmãs e que essa ex-esposa era sua irmã também. Ela disse aos policiais que a grana embaixo do colchão era a herança que Laércio recebeu do pai e que Simone roubou. Agora ela tá lá presa por suspeita de assassinato e fraude e tá bem feio a coisa pro lado dela.”

“Jesus. Ela tá na minha prisão?”

“Isso mesmo.”

Afastei o telefone da orelha. Antes de desligar, ouvi as últimas palavras do Monge soando como um sussurro:

“Bruno, boa sorte.”

 

***

 

Ela parecia cansada e humilhada. Ali, sentada no vaso sanitário e me olhando através do buraco na porta, ela tinha uma aparência vazia e inconsciente. A expressão nula de um cego. Parecia não se importar comigo, mas mesmo assim virei o rosto tentando respeitar sua privacidade.

“Simone.” Eu disse. “Jesus… Que cara é essa?”

Ela não respondeu. Seu olhar morto encarava o vazio em que eu a colocara. Chamei-a mais algumas vezes, sem resultado.

“Ele me contou sobre a gravidez.” Eu disse e então ela olhou para mim, assustada, como se eu a tivesse lembrado de algo que ela queria esquecer. “Porra, Simone, olha o teu estado. Eu vou te tirar daí…”

Ela desviou mais uma vez o olhar.

“Simone, por favor, fala alguma coisa.”

Não era o silêncio que me incomodava. Depois de quinze anos casado com ela, o silêncio era algo que me fazia falta. O que parecia estranho era sua docilidade. O jeito como ela me olhava, alheia a tudo, sozinha em seu sofrimento. Um sacrifício que eu não sabia que Simone era capaz de fazer. Eu estava acostumado com a sua necessidade de levar a vida a sério e de desprezar a minha mania de fazer piada com tudo.

“Simone…”

“…”

“Eu não entendo. O que você quer? Eu tenho mais dinheiro do que eu posso gastar e posso realizar todos os teus sonhos. Quer morar em Bom Jardim? Montar um abrigo? Quer ter meu filho, Simone? Quer ser feliz, porra?”

Então me dei conta de uma coisa: que caralhos ela ia querer com meu dinheiro agora? Naquela sala de espera, minha sorte não tinha serventia nenhuma. Nesse momento, meus olhos estavam afundados em lágrimas e eu estava perdendo o controle da minha face. E não era tristeza, mas sim um tipo de medo que nunca havia sentido antes. Eu estava assustado. Porque quando ela virou o rosto para a parede num gesto de vergonha e submissão, enxerguei o floco mágico tatuado em seu pescoço e percebi que pela primeira vez ele estava falhando comigo.

Aquilo era um presságio.

Eu chorava enquanto deslizava minhas costas na porta da sua cela. E tudo o que eu queria era que ela dissesse o óbvio, que aquilo tudo era culpa minha.

 

***

 

Acordei com as costas apoiadas na porta da cela e sentindo uma dor na nuca. O único som humano que eu ouvia era a batida irregular do meu coração.

Só então me dei conta da familiaridade daquela situação. Atrás de mim, a cela. Em breve minha urina ensoparia minhas partes baixas e eu ouviria a voz zombeteira do Monge me oferecendo consolo.

“Não, não, não.” Eu disse. “Foi tudo um sonho?” Perguntei para o teto, como se agora alguma entidade divina caminhasse nas passarelas do telhado. “Todo aquele dinheiro e felicidade?”

Comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo. Uma risada incontrolável que machucava meu intestino.

Apalpei todos os bolsos da minha farda tentando encontrar a garrafa de uísque. Nada. Estiquei as pernas e enfiei a mão nos meus bolsos e encontrei dinheiro. Estendi a nota de dez reais e enxerguei o pequeno floco de neve mágico.

Poderia ser? Investiguei a cédula e vi que o símbolo realmente era idêntico ao do carimbo. Deus seja louvado, a efígie da república impressa na nota dizia, e eu beijei sua boca. Não tenho preconceitos, amo todos eles da mesma forma, do peso chileno à libra esterlina.

Me levantei e contemplei a porta fechada. Atrás dela, podia estar Simone. E talvez estivesse morta, não sei, não tive coragem de checar, temendo encontrar do outro lado o sorriso ofuscante do Monge.

Não pense que eu não a amava. Só amei duas coisas durante minha vida inteira. Simone era uma delas. A outra me esperava no fim do corredor, com seu sorriso tênue e receptivo de cem mil dólares, pronta para me abraçar e dizer que o mundo podia ser meu. Seus ombros estavam cobertos de neve e ela usava sapatos Jimmy Choo e um xale Hermès esvoaçante, bordado à mão nos platôs Tibetanos. É o primeiro dia do inverno, ela disse, vamos voltar pra casa. Seu nome era Sorte e eu corri até ela sem olhar para trás. Porque esse é o problema de se viver seus sonhos, você nunca sabe quando vai acordar de um deles.

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