A Lua Sobre o Castelo

A Lua Sobre o Castelo

Por Rosca Tudor

Desde os tempos mais remotos da História nossos ancestrais chegaram à conclusão de que o melhor adversário que existe são outros seres humanos e, de fato, você encontrará registros de atividades competitivas da antiga China, aproximadamente no ano 4.000 A.C., até formas de combate corporal desportivo entre tribos nativas da América do Sul.

No ano 5711 D.C. a humanidade já passou por muita coisa. Menos de um bilionésimo dos humanos ainda residiam no planeta Terra e os pouco menos de dois bilhões que continuavam por aqui possuíam um modo de vida muito diferente do que você tem no começo do Séc. XXI. Já fazia milênios que a humanidade vivia num esquema econômico chamado de hiperprodução. Quando começou a expansão espacial tivemos acesso a muito mais recursos do que precisávamos e, com o advento da produção totalmente automatizada e plena, iniciada com relíquias chamadas de impressoras 3D, qualquer pessoa pôde produzir em casa aquilo que quisesse. Com isso o antigo sistema de vínculo trabalhista deixou cada vez mais de fazer sentido. Até mesmo alimentos passaram a ser fartos após a criação de fazendas hidropônicas totalmente automatizadas. As pessoas cada vez mais precisavam pagar por menos coisas, até o ponto em que a antiga medicina evoluiu para a bioengenharia e esta para a capacidade de criarem em suas próprias casas as máquinas e substâncias necessárias para mudar e gerenciar sua própria biologia.

Houveram catástrofes como guerras e revoltas, além de muito do velho mimimi. Mas a humanidade, um dia, superou isso tudo e realmente evoluiu. Você do Séc. XXI deve achar que a maior evolução humana foi a capacidade de construir mais coisas, e está totalmente enganado. Claro, para conseguir a verdadeira evolução muita coisa precisou ser construída, mas a grande diferença entre um ser humano do Século LVIII e do XXI é o próprio ser humano.

Existem muitas histórias para contar sobre os diferentes seres humanos. Dá para dizer que as pessoas se mudaram tanto que parecem outras espécies. Seres humanos de formato quase esférico e com casco parecido com o de uma tartaruga que conseguem sobreviver no espaço, outros que possuem os dois sexos totalmente funcionais, outros com características de animais aquáticos para viver em ambientes marinhos ou fluviais. São muitas mudanças. Mas uma coisa nunca mudou: O ser humano tem uma incrível capacidade de se entediar… e uma ainda maior de superar isso.

Um grupo de jovens habitantes da Terra, na faixa de seus 70 anos (sim, pessoas vivem muito mais do que isso em suas plenas juventudes, apesar de que poucos flertaram com a imortalidade, que é o único tédio que ninguém conseguiu superar) procurava algo de útil para fazer. Um deles teve a ideia de fuçar nos arquivos locais e, então, encontrou algo que não era visto há muito tempo: a imagem de um carro.

Por séculos a humanidade teve seu cotidiano dominado por essas máquinas. Elas vinham em diferentes aparências e tamanhos, possuíam distintas funções e, além de tudo, davam a forma para as cidades e seus arredores. Tudo era feito para os carros, como se fossem deuses pelos quais as pessoas se devotavam. Máquinas barulhentas e poluidoras (ao menos durante pouco mais que seu primeiro século de existência), facilitadoras da morte e maiores responsáveis pela crise chamada Exploração do Petróleo, que é um dos períodos mais terríveis de toda nossa história.

Os humanos são muito menos inteligentes no Século XXI pois não têm acesso às maravilhas que a bioengenharia faz por seus cérebros, mas ao menos possuem a capacidade de se auto preservar. Então, por que o amor pelos carros?

Depois de muito estudo o grupo entendeu que nem todas as pessoas amaram tais máquinas, porém ainda se entregam, voluntariamente ou não, à sua dependência. O grupo pesquisou então os benefícios dos carros e encontraram coisas interessantes. Carros mataram, mas também salvaram vidas. Carros foram o único meio de transporte viável na maior parte dos lugares. Carros serviram como locais móveis de acasalamento e até a moradia de algumas pessoas.

Certo… certo? Mas, será que nenhuma dessas funções e benefícios poderia ser substituída ou simplesmente negada, especialmente nos últimos séculos onde foram usados e amados? Deveria haver mais do que isso e a pesquisa continuou sendo feita. Um dia, quando outros assuntos eram pesquisados nos arquivos, uma curiosidade surgiu devido um certo relato. No ano de 1994 D.C. morreu um homem que era considerado herói. Muitos heróis morreram durante o curso da história e isso sempre causou comoção, mas este caso foi diferente. Todo o ritual funerário dele pode ser, sem qualquer dúvida, considerado de longe o maior de toda a história da humanidade em quantidade de pessoas a se fazerem presentes e, também, por ninguém ter sido obrigado a isso. Uma das cidades mais populosas de toda a história, com mais de dez milhões de pessoas (não contando a zona metropolitana) foi parada e silenciada pelos ritos funerários a este homem. Quem ele era?

Era um piloto de corrida. Corrida de carros. O que tinha de especial nessas corridas de carro? Por que as pessoas idolatravam quem tinha como atividade fazer barulho e poluir ainda mais a já muito poluída atmosfera daquela época?

O grupo estudou então tais corridas. Os humanos sempre praticaram muitos esportes perigosos e, mesmo no Século LVIII, diferentes tipos de corrida ainda seriam praticadas em certas partes do universo, porém nada parecido com as de carros.

Enquanto pesquisavam mais sobre os carros, encontraram poucos documentos sobre como eram feitos. Os velhos vídeos das corridas os impressionavam muito, mesmo sem ainda entenderem direito as físicas e processos de fabricação usados em tais máquinas. Para os padrões do Século LVIII elas eram todas rústicas, quase artesanais, muito limitadas em tecnologia e extremamente complexas. “Olhem este projeto! Mais de dez mil peças e nem consegui encontrar todas as suas páginas”, disse um dos pesquisadores. “Eles faziam essas coisas andarem explodindo substâncias totalmente voláteis em seu interior. Eram todos loucos”, disse outro.

Finalmente conseguiram encontrar as plantas completas de dois veículos. Nas ruínas da antiga cidade de Stuttgart, há alguns séculos atrás, foi encontrado um museu soterrado e, em uma de suas câmaras, um cofre. Ali encontraram as plantas e instruções completas de dois carros, assim como as informações para construir as ferramentas necessárias às suas montagens, dicas de como ajustar suas peças, criar o combustível ideal e, por fim, sua pilotagem. Eram milhares de horas de vídeos e incontáveis páginas de texto, plantas, esquemas de montagem e diversas anotações e ilustrações. Havia até instruções para produzir as tintas usadas. Um bilhete dizia: “Deixo para as futuras gerações as instruções para ressuscitarem nosso modelo mais interessante e também seu mais digno rival. Vocês entenderão a razão disso quando colocarem os dois lado a lado”.

Depois de outros muitos anos o grupo finalmente conseguiu montar ambas as máquinas e restaurar as ruínas de um antigo autódromo que existiu a duzentos e quarenta quilômetros a noroeste de Stuttgart, ao redor de um velho castelo, que ainda estava ali. Tudo conforme especificações da época sobre a composição do asfalto e demais materiais. Tudo foi acertado conforme os antigos textos e dois dos pesquisadores foram escolhidos para testar as máquinas depois de treinarem numa simulação virtual desenvolvida com as estimativas do funcionamento de tudo aquilo.

Enquanto o autódromo era restaurado ninguém entendia as razões de tal obra, ou sequer da “perda de tempo” do grupo de pesquisadores, mas depois de pronto ninguém mais parecia duvidar da validade do projeto. O ronco do primeiro carro a ser ligado causou alvoroço entre as pessoas, que aos poucos chegavam ao local. O rugido de um animal selvagem, há muito tempo extinto, voltava a ser ouvido. As pessoas desconheciam sua voz, mas era como se seus DNAs tivessem memória própria e nunca esquecessem. O lado mais primitivo do ser humano recordava as feras que nos caçavam na pré-história, mas nesta encarnação tais bestas não estavam nos opondo e sim se oferecendo em um pacto. A simbiose carro máquina fez sentido.

Uma das máquinas era pintada num tom de vermelho que ninguém ali antes vira e que todos os presentes entenderam como sendo aquele que deveria ser o padrão dessa cor. Uma das cartas deixadas no cofre dizia que “esta máquina é a última e mais refinada da antiga maneira de se fazer superesportivos”. Todos os presentes queriam chegar perto e colocar a mão na lataria enquanto sentiam o calor do motor e o cheiro do combustível queimando.

A segunda máquina foi chamada de “o primeiro superesportivo da nova geração e bússola de design para todos que vieram depois”. Possuía um design mais robusto, mas não menos belo que o carro vermelho. Sua pintura prateada refletia o sol matutino acrescentando um leve azul ao brilho. “Como as pessoas conseguiam pensar nesses tons de cor?”, questionou um curioso, deixando os pesquisadores sem uma resposta objetiva. “Não existe bioengenharia que substitua o bom gosto”, brincou um dos pesquisadores, arrancando algumas risadas da multidão.

Os pilotos ficaram o dia inteiro levando as pessoas para passear nos vinte e um quilômetros do velho autódromo. O traçado era intimidador, cheio de curvas fechadas próximas demais de muretas, morros e barrancos, cercados por uma antiga e escura floresta. Com o passar das voltas os dois pilotos pegavam intimidade com as máquinas e as pilotavam com cada vez mais confiança. Pouco antes do almoço já conversavam sobre maneiras de guiarem os carros com um pouco mais de velocidade e, ao final da tarde, já tinham todas as cento e cinquenta e quatro curvas mapeadas em suas mentes, discutindo maneiras de serem ainda mais rápidos nelas.

À noite milhares de pessoas já haviam chegado ao antigo autódromo. Seria muito fácil para a multidão olhar a corrida de perto, pois a maioria poderia voar ou usar qualquer outra tecnologia de monitoramento, mas fazia mais sentido se sentarem nos pequenos morros nas laterais da pista, sobre a grama úmida e entre a flora e fauna do local enquanto enxergavam tudo com os próprios olhos e ouviam com os próprios ouvidos. “Olha lá, estão chegando!” Uma criança dizia toda vez que os rugidos se aproximavam, como se respondesse às vozes dos antigos deuses ecoassem ao vento gelado lhe saudando após eras de esquecimento. Ao longe os faróis brilhavam como labaredas de fogo queimando em meio às incontáveis árvores daquela floresta. Dois homens faziam aquilo que os seres humanos sempre fizeram de melhor, que é superar… sempre superar… superar o meio… superar uns aos outros… superar suas próprias limitações… e que a lua que brilha sobre o castelo nunca nos deixe esquecer disso.

“O último carro que será construído será um carro esportivo” – Ferry Porsche

Parabéns à divisão esportiva da Porsche pelos seus setenta anos e obrigado a todos que enviaram seus textos à décima primeira edição da Revista Ecos. Vocês ajudaram a humanidade em sua busca pela superação.

 

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