Om, bom-dom
De Luiz Mariano
Vou te contar uma história que contando ninguém acredita.
Quem me contou foi o tal de Aquim, pastorzinho dessas bandas, filho de Sad. Moleque imaginento. Agora tu imagina que o menino é de inventar história, porque essa é, realmente, muito curiosa.
Pastor? Pois sou também. Daquele tipo de gente, que, vai império, volta império e nada muda; estação vem estação vai e tudo sempre igual. Sou das bandas de Damasco; mas, só nasci lá, acho. Ou assim contava minha mãe, pra parecer importante. O fato é que a gente vai levando a vida, e as ovelhinhas é que vão guiando a gente, e acabou que cheguei aqui por perto dessa gente esquisita, cheia de mania. Filho, mulher, já se foram. Ele de doença, tadinho; ela, de morte matada, ladrões de caravana. Coisas que passam. Sobrou eu, a poeira, o cajado, a tenda, e minhas ovelhinhas.
Mas a vida não é tão ruim. Falei do povo esquisito, mas o tal de Aquim é uma peça. Ele vai me seguindo e contando história atrás da outra, e nem se preocupa com minha cara emburrada. O pai dele é homem valente. Já vi. Perdeu mulher também, pra outro. Coitado. Dói demais. Andanças…
Mas te conto, mano velho; viajando aqui. É o tempo, vai comendo a cabeça da gente. Que o tal de Aquim disse que viu o que ninguém jamais vai ver de novo. Mas é claro, quem que vai ver a mesma coisa? Tudo não muda sempre? Mas diz ele, que um dia tava voltando do pastoreio, quando ouviu uns berros de mulher. Mas, homem, tome berro!! Era uma coisa indecente, aquele barulho, aquela violência. Dor de parto… e onde?! No casebre!!
Te digo! Era o terror. Junto a ela tava o marido, decerto; suando pelos borbotões, tentando trazer água sabe-se lá de onde. E ela lá. Lá! Pode? Aranha, mosquito, barro, musgo, poeira, isso pra não dizer dos miúdo. Também tinha a cantoria de burro, boi, cabrito… bode. Era a bicharada do Sadoc, dono daquele lugar. Na verdade, era mais um depósito de cocô de cabrito. Ô bicho pra fazer bosta! Naquele lugarzinho mesmo, tava cheio.
Pois o casalzinho não se fez de rogado; lá estavam esposa e marido fazendo aquela força, aquele esforço pra nascer alguém. Isso se fosse nascer; porque a noite prometia ser longa, já tinha chovido e enchido de goteira, e a mulher do Sadoc, não me lembro o nome, de vez em quando aparecia para ajudar.
Tudo isso me dizia Aquim, com uma riqueza de detalhes e floreios digna dos melhores mentirosos. Ele falou, por exemplo, que o casal, imagine só, tinha procurado algum lar que oferecessem espaço pra uma noite apenas, pra tentarem fazer o nascimento. Você imagina: capaz que ninguém ofereceu lugar! Um tapetinho que fosse! E ao que parece a moça já tinha chegado na vila com a bolsa rompida, escorrendo sangue das pernas… como, me diz, que alguém não ia ajudar?
É por essas e outras que não acredito em nada, deus nenhum. Sadoc resmunga que sou insensato; mas existem outros como eu, mesmo entre eles aqui. O que existe é o que vejo. E essa história eu não vi. Mas, continuo: que o tal de Aquim falou, disse que o pai acolheu o casal desesperado e maltrapilho. Que podiam ficar junto com os bois e o jumento. E que a noite foi, funda, cada segundo rangendo, chuviscando na palha… realiza. E a menina, a mulher, fazia força, força, força, até que… vem a cabeça! Aquim é detalhista. Diz ele que viu tudo, agarrado a um bezerrinho. Que os dois choraram, junto com o pequenininho… era um menino! E aquela corda esquisita saindo junto, aquela coisa ensanguentada e gosmenta. O menino foi logo pro colo da mãe, que tinha parado de gritar, pra alívio do velho Sadoc, Sadó, que já estava quase arrependendo de ter deixado eles ficarem.
Pois se a história já se parece com um homem com asa, ou seja, difícil de acreditar, espera até ouvir o resto. Aquim jura que viu tudo, testemunha ocular; ele sempre apanha do pai quando conta essa história, deve ser por isso que ele gosta de contar pra mim. Pra que eu vou bater no menino? Quando eu perguntei a história pro velho Sado, ele me disse que era tudo invenção do moleque. Talvez isso tivesse relação com o massacre dos meninos, tempos depois, por essas bandas. Foi feio. Mas o menino era teimoso como o pai. Reza um ditado em Damasco que os velhos são jovens que já não sabem mais acreditar…
Volto pro Aquim. Disse que a primeira coisa que ouviu foi um trote; um cavalo, belíssimo, apareceu por ali, junto com seu cavaleiro esbelto, um homem de rico traje, estranhos modos, logo seguido de outros cavaleiros, com seus cavalos prodigiosos; eles apearam e cumprimentaram fazendo uma reverência. Apontaram para o bebê menino e conversaram entre si. O teor da conversa, ninguém sabe, nem o imaginoso Aquim; disse ser dessas línguas estranhas que se ouvem nos grandes mercados. Qual não foi a surpresa de todos ao verem o homem que parecia ser o mais importante do grupo, corpulento, de grande barba, falar em alta voz: “Baal”. Baal? O deus fenício? Eu já tinha ouvido falar, em alguma das grandes cidades. Mas parecia que ele estava se apresentando; batia no peito e repetia a palavra, até que olhou o bebê e chorou como uma criança. Ajoelhou-se e ficou lá, por um longo tempo. Aquim disse que os cavalos pareciam ser de longe, bem longe, de Babilônia ou Pasárgada. Aquim, como se sabe, não batia bem com a cabeça.
O homem ficou lá, ajoelhado, balançando pra frente e pra trás. Ninguém sabia muito bem o que fazer. Todos estavam meio atônitos, quando entrou o que parecia um sacerdote, trajado de roupa para viajar no deserto, de turbante, a boca tapada. Lentamente, entrou no mesmo local; munido de uma espada longa, curva, seguido por um serviçal, o sacerdote viu o chefe dos cavaleiros e entendeu. Olhou para o casal com o menino e se emocionou, abraçou o chefe dos cavaleiros, rindo e chorando ao mesmo tempo. Pensa numa cena esquisita; O burro, a mulher amamentando, aquela penca de homens viajantes. Que pensariam Sadoc e sua mulher? O que queriam com aquele bebê?
Súbito, alguns cochichos, algumas tossidas; uma moça com brincos de pérola, vestido branco, cabelos negros e pele de bronze adentrava a pobre habitação. Esta dirigiu-se ao pai e mãe do menino, com sotaque carregado: “Muito prazer. Meu nome é Semíramis. Venho de Alexandria… que menino lindo!” e abriu um sorriso largo, desses de corar metade dos homens. Achegou-se junto a mulher que amamentava e a abraçou. Muitos se enterneceram ao ver a cena; outros… Esta digna Semíramis também não tinha vindo sozinha, ao contrário do homem de turbante; seus asseclas, ao invés de montados em cavalos, vinham em dromedários. O lugar, que não era grande, cada vez mais se apequenava com o tamanho de gente que entrava… e a noite ainda não tinha nem entrado na adolescência.
Aquim por fim tinha largado do bezerrinho, e circulava com espanto e esfomeada curiosidade entre os presentes. Nunca tinha visto tanta gente importante num só lugar. O cavalo do cavaleiro grande era realmente imponente. Mas ele tinha era se enfeitiçado por Semíramis, que não era uma mulher propriamente bela, mas exalava algo que, ele sabia, deixava os homens sem razão. Como ela falava sua língua, pôs-se a conversar com a moça; descobrira que era sacerdotisa, cultuava uma infinidade de deuses e tinha vindo com um companheiro que, infelizmente, ela disse, havia morrido na viagem. Axel, do reino de Aksum, vinha de mais longe ainda, disse ela, e agora ela sabia que a longa jornada não tinha sido em vão.
Nem bem conversavam, quando outros dois senhores também entraram no recinto. A essa altura Aquim nem se surpreendia tanto; o curioso era como estes moços tinham os traços do rosto. Um tinha como que os olhos puxados, mal dava para ver a cor dos olhos; o outro era de uma cor estranha, a qual não se vê, quase o quê, roxa? O dos olhos puxados carregava um objeto que tinha um desenho preto e branco, sugestivo: parecia estar em movimento, era o que sugeria o desenho. Uma bola preta era circundada pela cor branca, e o mesmo, reversamente, acontecia com a bola branca. Seu companheiro quase roxo tinha a cabeça raspada, e, de todos os viajantes era o que tinha a roupa mais simples, surrada; Aquim jurava sempre, todas as vezes que contava a história, que o homem estava descalço. Também os novos hóspedes chegaram e puseram-se a reverenciar pai, mãe e filho.
O bebê, Aquim foi observar, não tinha nada de extraordinário: cabelo ralo, choroso, olhos castanhos, não desgrudava das tetas da mãe, que, na maior parte silenciosa, parecia guardar tudo em seu coração. Seu esposo não parava quieto, sempre tentando proporcionar a ela algum conforto, uma palha a mais para se sentar, alguma água trazida por um dos cavaleiros, além de organizar, de uma forma improvisada, as visitas e apresentações cheias de cerimônia que os convidados faziam, cada qual em sua língua. Semíramis, mais velha que a moça que acabara de se tornar mãe, ajudava-a, e até conseguiu fazê-la rir, compartilhando algum segredo de mulher. Aquim achava tudo muito curioso e divertido, e o mais incrível era que, fora alguns cavalos e dromedários, não se percebia nada de mais do lado de fora. Todo mundo tentava se acotovelar lá dentro, o que acabava por deixar o ar mais abafado.
Num dos momentos em que tinha ido para fora, Aquim viu ao longe o que parecia ser pastores da redondeza. Eles chegaram junto ao menino e indagaram:
-Boa noite! O que tá acontecendo aqui?
Aquim não titubeou:
-Vieram gente de muito longe, parece que do Oriente, foram ter com um menino que acaba de nascer!
-Nós estávamos ao longe – disse um dos pastores – quando o maluco aqui (apontou para outro dos pastores) comentou que algo estava acontecendo, estava ouvindo alguma música sendo tocada, como um coro de vozes. Eu disse que ele estava louco, mas ele insistiu pra que a gente viesse pra esse estábulo.
-Venham ver! – foi o que Aquim conseguiu dizer, porque na mesma hora chegara mais um outro convidado, pouco depois dos pastores; um jovem forte, baixo, atarracado, de pele muito escura. Também vinha sem muito luxo em suas vestes. Ele levava o que parecia ser um instrumento musical, um tambor, e falou uma palavra: “MAUI”. Falou aquilo com uma gravidade e seriedade que chamaram a atenção de Aquim. Este, sem entender porque fez aquilo, apontou para dentro; nem bem fazia isso, ouviu uma voz doce:
-Você deve ser daqui, certo? Saudações gregas, sou Diotima. – Olhou ao redor e viu uma anciã, uma velha senhora muito sorridente, recheada de sabedoria. Ela conversou brevemente com Aquim. – Vim ver se é verdade o que algumas correntes de interpretação do teu povo informam… Parece que nasceu alguém importante hoje, não?
-Nasceu um menino! – disse Aquim. Ele já estava se cansando de repetir o fato. Ela sorriu.
-Um menino! Não é incrível que as crianças ainda continuem a nascer? Fale-me, garoto. O que o tio Sócrates acharia disso? – E com uma sonora gargalhada ela entrou no recinto. “Só tem gente louca aqui”, disse o filho de Sadoc. Ficou por ali, pensativo, quando, adivinha? Mais um convidado. Este, de cor mais avermelhada. “o Arco-íris está visitando a gente”, pensou Aquim, enquanto olhava para o recém-chegado, aliás montado num cavalo branco. Vinha armado, sério, compenetrado. Apeou, tinha cabelos longos. “Cuauhtemoc”, falou, assentiu com a cabeça e entrou. Antes de entrar, fez algo de muito esquisito com os braços, tateou as laterais da entrada e falou mais algo sem sentido. O lugar era parcamente iluminado; haviam acendido tochas, com o cuidado de não colocar fogo em algo. Como estavam conseguindo fazer isso era o maior mistério daquela noite, para Aquim. Até surgir.
Eis que ouve-se um estrondo; em seguida um barulho repetitivo, muito esquisito, diferente de tudo o que Aquim já tinha ouvido. Como se não bastasse, um objeto surge do céu, de cor prateada, reluzente. Aquim pensou estar vendo coisas, pensou estar sonhando, mas a verdade, disse ele, era que não estava. E que de repente surgiu daquele objeto gigante, que mais parecia uma casa voadora, um ser, um animal, um bicho horripilante. Tenha pernas e braços, sim; De pele verde meio escamosa, pingava dela um líquido pegajoso; na cabeça, tentáculos, maiores que qualquer barba; portava algum tipo de armadura mole e fazia um barulho que botava medo, uma coisa meio grave, um som meio arrastado. Também ele entrou no casebre. Nessa hora Aquim se escondeu; procurou o seu amigo bezerrinho e ali ficou, arregimentando coragem. Por fim, quando levantou os olhos, viu que o escamoso estava em frente ao bebê, e esse chegou a sorrir, se por espasmo, se por vontade, não se sabe. O fato é que logo depois o atarracado do tambor começou a atacar seu instrumento, cantando uma melodia que dizia algo assim:
“Om, bom-dom”
“Om, bom-do Dom”
“Om, bom-dom”
“Om, bom-do Dom”
Aquilo batia no peito de Aquim e ressoava; como se o coração dele fosse um tambor também. Quando deu por si, todos cantavam e dançavam. Ele lembra do grito de Cuauhtemoc até hoje. E sempre, quando termina de contar essa história, ele canta a musiquinha, deliciosamente irritante; e quando dou por mim, estou cantando junto.