Tetraedro
De Bernardo Pereira
Com o clique do interruptor, piscando em intervalos irregulares, uma depois a outra, depois a outra, depois mais duas, estabilizando uma depois a outra, depois a outra, todas acesas, o laboratório completamente iluminado, banhado de branco fluorescente, o chão branco, as paredes brancas, o aparelho branco, de sua barriga aberta, projetavam-se suas entranhas de cobre revestidas de plástico branco em grossos cabos enrolados, trançados, que serpenteavam até um buraco no chão. Numa das paredes, um mostrador verde indicava 88:88.
O aparelho tinha um aspecto simples, um leigo diria se tratar de um balcão sólido de uns três metros de largura por um metro de altura, em forma de ferradura. Sobre uma de suas extremidades, uma espécie de caixote que lembrava um forno. À esquerda da ferradura, do lado onde ficava o tal caixote, a sala de observação, separada do laboratório por uma parede de vidro, onde havia trinta poltronas organizadas em três níveis, como numa sala de cinema. À direita da ferradura, separada por uma parede de vidro assim como a sala de observação, estava a sala de controle, preparada para abrigar oito pesquisadores, cada um com sua estação de trabalho dotada de monitores e controles diversos.
Tanto os espectadores do experimento quanto os pesquisadores que o conduziam acessariam suas respectivas salas por um corredor que contornava por trás o laboratório. Os diversos adesivos colados à entrada da câmara de descontaminação que dava acesso ao laboratório alertavam com ícones e pictogramas para os mais variados fatores de risco e segurança. Dentre eles, o que mais assustava era aquele famoso, com as três últimas fatias de um bolo, daqueles que se corta fazendo uma rodela no meio. Aliás, qual a função da rodela no meio? Ninguém sabe, um time de oito pesquisadores não estaria jamais preparado a responder esta pergunta. Deve ser para dar sorte, todas as coisas inexplicáveis o são, exceto quando servem para evitar o azar. Tem que ter fé.
O laboratório tinha atmosfera estritamente controlada, nele era permitida a entrada de apenas uma pessoa por vez, vestida da cabeça aos pés com trajes que um leigo diria de astronauta, após passar pela câmara de descontaminação. Um grão de poeira era sujeira demais para o laboratório, inadmissível.
Uma a uma as estações de trabalho se foram preenchendo na sala de controle, um a um se foram iluminando os monitores. O cheiro de café e o som de ventoinhas dominavam o ambiente. Os pesquisadores estavam ansiosos, apreensivos, calados e em suas olheiras se viam os dias e noites de trabalho que culminavam naquele dia. Através da vitrine, através do laboratório, viam a sala de observação ainda escura. Um deles teve um frio na barriga ao ver a luz da câmara de descontaminação acender. Sabia que os jatos da câmara faziam um barulho infernal, mas desse barulho, nada chegava aos seus ouvidos. Como num filme mudo, viu emergir o astronauta pela porta de vidro e caminhar cuidadosamente a dúzia de passos que o separava do aparelho.
O astronauta se ajoelha então próximo aos cabos, retira um painel expondo dutos, fios, peças de metal e de plástico, placas verdes de silício, leds piscantes verdes e vermelhos. Pluga um monitor de mão em uma das placas, aciona o dispositivo, toca a tela com um pequeno bastão, vira em direção à equipe e aponta para a própria cabeça, ao que o coordenador coloca o headset e o liga, escutando a respiração do astronauta, que diz “pronto para começar a verificação”.
O coordenador olha então para a pesquisadora da estação quatro, acena brevemente a cabeça e ela começa a digitar, falando também em seu headset “rotina um, protocolo XPZ traço H2 preparado” a voz metálica e chiada em seu ouvido responde “lançar rotina um”, “lançando em 3, 2, 1”.
No monitor em sua mão esquerda, o astronauta vê surgir o que um leigo chamaria de eletrocardiograma e diz “pico em 3,47, duração de 8,32 microsegundos.” A pesquisadora digita alguma coisa, abre um novo console virtual e diz “confere.” “Sistema operacional, temperatura exterior de aproximadamente 275K, núcleo a 3,48K”, responde o astronauta, “confere, lançando rotina um, protocolo XPH traço 24 em 3, 2, 1”, a pesquisadora fala então em seu headset e o astronauta responde, “pico em 7,82, duração de 17,08 microsegundos”, “confere”.
O astronauta desconecta seu monitor, volta a plugá-lo em um novo componente, acena com a cabeça para o coordenador que mastigava a ponta dos óculos enquanto olhava ansioso através da vitrine. Sem virar a cabeça, o coordenador dá o comando ao ocupante da estação seis, para que comece a testar a rotina dois.
Os testes do equipamento se estendem por quatro horas, ao fim das quais todos estão exaustos, as canecas de café vazias pela terceira ou quarta vez. Como esperado, os resultados são positivos, o equipamento completamente operante e funcional e pronto para conduzir o experimento.
Durante a última meia hora de testes, começaram a aparecer os primeiros ocupantes da sala de observação, que logo pegaram as poltronas mais próximas à parede de vidro, para verem de perto o experimento. Sabiam que não começaria por pelo menos duas horas, mas garantiam seus lugares, que não arriscariam perder por nada. Aquele laboratório era o lugar do mundo para se estar naquele dia, o que sairia dali revolucionaria toda a ciência humana e testemunhar o experimento era um privilégio para pouquíssimos. Ocupando as poltronas, físicos, jornalistas, um filósofo, um grupo de patrocinadores do experimento. Com todas as poltronas ocupadas, um grupo que não tinha conseguido lugares tentava convencer o staff do laboratório a permitir que assistissem em pé, mas, irredutíveis em suas regras e procedimentos, negaram o acesso ao grupo, que teria que assistir ao experimento em um dos monitores na sala anexa, onde naquele instante a equipe descansava e se preparava para o experimento, enquanto comia simples sanduíches – champanhe e caviar, só depois de concluído o experimento.
Da sala de observação, as pessoas narravam em seus tablets e telefones tudo o que acontecia no laboratório, descreviam as instalações, falavam de quem lá estava, especulavam sobre o experimento, que no momento era trending topic mundial. Milhões de computadores por todo o mundo acompanhavam um live feed do laboratório e esperavam ansiosamente pelo início do experimento.
Na hora marcada, a equipe voltou à sala de controle. O coordenador do experimento, através da câmera de seu computador, dirigiu-se ao mundo, que os assistia, com um pequeno discurso preparado, dizendo “boa noite, foram anos desenvolvendo teorias, fazendo simulações virtuais, projetando e construindo o equipamento, testando e aperfeiçoando modelos e agora nós estamos prontos para realizar o experimento, possivelmente o mais importante que já foi feito pela humanidade. Como vocês que estão assistindo já sabem, nós realizaremos, em termos corriqueiros, a primeira viagem no tempo”. Mostrou à câmera uma caixa selada de plástico transparente, dentro da qual havia um tetraedro de vidro de cor âmbar, dizendo “em alguns minutos este pequeno tetraedro de vidro será enviado por nossa equipe no futuro para o passado. Cronologicamente, o experimento vai seguir da seguinte maneira: vamos ativar agora o equipamento, que precisa de em torno de quinze minutos para atingir o nível máximo de energia”.
Virou a cabeça para uma das pesquisadoras e deu o sinal de que iniciasse o equipamento, o que causou uma vibração e um zumbido grave no laboratório, que nem a blindagem das vitrines foi capaz de isolar. De volta à câmera, disse “dentro de quinze minutos, vamos ativar o cronômetro. Prevemos receber o tetraedro do futuro por volta do quarto minuto a partir do início da contagem. Como podem haver variações no tempo de chegada, abriremos o compartimento na marca de nove minutos. Na sequência, carregaremos novamente o equipamento ao nível máximo de energia para o envio do tetraedro. Vejam bem, neste momento, teremos conosco dois tetraedros, quero dizer, tecnicamente duas vezes o mesmo tetraedro,” riu para a câmera e continuou a falar, “passados então quinze minutos mais, na marca dos 24 minutos, depositaremos este tetraedro,” mostrou novamente a caixa lacrada, “no aparelho e aos 25 minutos o enviaremos ao passado, concluindo o experimento. Vamos aguardar agora o momento para zerar o cronômetro e iniciar o experimento.”
Desligou a câmera do computador, o live feed passou a mostrar uma imagem do laboratório, com o compartimento de transporte transtemporal em primeiro plano e ao fundo a sala de controle, onde a equipe compenetrada olhava seus monitores. Na sala de observação, a plateia se torcia de ansiedade nas poltronas, compartilhando com o bilhão de pessoas que assistiam agora ao vivo, todos os detalhes do que acontecia no laboratório.
Aparece então em cena o astronauta, carregando nas mãos a caixa de plástico lacrada contendo o tetraedro. Nada se ouve além do zumbido elétrico do aparelho. Tudo pronto para começar, o mostrador que dizia 88:88 se apaga, voltando a acender mostrando 00:00, pisca uma, duas, três vezes e os segundos começam a contar. Frio coletivo na barriga, dedos suados que escrevem em seus smartphones, olhos que não piscam.
Passaram apenas 24 segundos, a espera está matando a todos. O astronauta olha fixo para a equipe, esperando updates no headset. Os diálogos da equipe na sala de controle são transmitidos aos espectadores, tanto os que lá estão quanto os que acompanham de casa o mais importante experimento da história da humanidade.
Passou o primeiro minuto e meio do início da contagem. O diálogo da equipe é puramente técnico e não interessa realmente a ninguém que esteja fora da sala de controle, mas dá um toque sexy a quem de casa assiste o experimento e ouvindo aqueles números e parâmetros se sente parte daquele grupo.
Três minutos se passaram e o suor frio é geral. O mundo parece estar em silêncio neste momento. Pode-se dizer que praticamente todos os aparelhos de televisão e computadores conectados à internet estão assistindo ao experimento.
Quatro minutos completos e neste momento o tetraedro enviado do futuro pode já estar no compartimento. O compartimento está equipado com um sensor preciso, que acusaria qualquer massa em seu interior, mas o pesquisador da estação número 2 não tem ainda nenhuma leitura.
Aos cinco minutos e meio, a úlcera do coordenador da equipe ataca e ele rebate com mais um café.
Aos seis minutos, ainda nenhuma leitura e o coordenador joga no lixo o lenço de pano, já saturado do suor de sua testa.
Aos nove minutos, o zumbido da máquina começa a morrer. Massa indicada no interior do compartimento de transporte transtemporal, zero. O astronauta abre o compartimento e, para decepção do mundo inteiro, está vazio. Olha incrédulo para o tetraedro dentro da caixinha lacrada de plástico, como que para certificar-se que ele realmente existe, olha então para a equipe, esperando que digam algo, mas todos estão mudos.
Na internet, todos os status compartilhados sobre o experimento vêm agora acompanhados da hashtag #fail e a equipe não sabe o que fazer.
O cronômetro conta já 12 minutos e nenhuma decisão foi tomada.
Aos 15 minutos, não tinham ainda iniciado a nova carga de energia.
Aos 16 e meio, os primeiros memes sobre o experimento fracassado já circulavam.
18 minutos, cortou-se a transmissão do live feed, conduziram-se os espectadores para fora da sala de observação.
21, o coordenador do experimento sai da sala de controle batendo a porta atrás de si, atravessa a sala anexa pisando duro e empurrando os jornalistas, passa o lobby e sai correndo pelo estacionamento em direção ao seu carro.
Aos 24, a equipe desliga os computadores, o equipamento de transporte transtemporal e o cronômetro. O tetraedro ficou lacrado dentro da caixinha de plástico, esquecido sobre o aparelho.